A magia do poeta
A magia acontece quando,
como gotas do céu
as letras caem no papel,
numa chuva que começa fraca
sem esperança
garoando leve
antevejo chegar a bonança
que ao longe,
sente-se o cheiro a exalar
o céu avisa em tons cinza
como dentro do peito nublado
renasce em seu apogeu
tão delicado quanto eu
ao começar a costura,
das frases e versos
a picar meus dedos como agulhas
na mão de uma costureira prendada
que cose com sofrimento, concentrada
ponto a ponto
a pequena dose de epifania no papel
como rendas num delicado véu
melindroso,
respiro de novo
e lentamente deixo a chuva cair
sem controle, a chuva de mim
para o mundo eu venho emergir
um humano qualquer
numa tempestade
danço arrebatado
pela composição desta melodia
em minha mente,
provocando de repente
um frenesi, quando faz refletir
textos imensos de mim
frenéticos, descontrolados, poéticos
escrevo, costuro e ponto
vírgulas e mais um ponto
um bordado desmancho
como um salpico de neve a cair
apanho a última palavra a surgir …
já está!
Já vai o sol a raiar!
